Jó
Então Jó respondeu:
“Ouçam com atenção as minhas palavras.Que isto lhes sirva de consolação.
Permitam-me, e eu também falarei.Depois que eu tiver falado, continuem a zombar.
Quanto a mim, acaso é a um homem que faço a minha queixa?Por que eu não ficaria impaciente?
Olhem para mim, e fiquem espantados.Ponham a mão sobre a boca.
Quando me lembro disso, fico perturbado.O horror toma conta da minha carne.
“Por que os ímpios continuam vivos,envelhecem e ainda crescem em poder?
Seus filhos se estabelecem com eles à sua vista,e os seus descendentes diante dos seus olhos.
Suas casas estão seguras e livres do medo;e a vara de Deus não está sobre eles.
Seus touros procriam sem falhar.Suas vacas dão cria, e não abortam.
Eles deixam sair os seus pequeninos como um rebanho.Seus filhos dançam.
Eles cantam ao som do tamborim e da harpa,e se alegram ao som da flauta.
Eles passam os seus dias em prosperidade.Em um instante descem ao Seol.
Eles dizem a Deus: ‘Afasta-te de nós,pois não queremos conhecer os teus caminhos.
Quem é o Todo-Poderoso, para que o sirvamos?Que proveito teríamos, se orássemos a ele?’
Eis que a prosperidade deles não está em suas próprias mãos.O conselho dos ímpios está longe de mim.
“Quantas vezes a lâmpada dos ímpios se apaga,ou a calamidade cai sobre eles,ou Deus lhes reparte dores em sua ira?
Quantas vezes eles são como a palha diante do vento,como o restolho que a tempestade leva embora?
Vocês dizem: ‘Deus guarda o castigo da iniquidade para os filhos dele.’Que Ele retribua a ele mesmo, para que o sinta.
Que os seus próprios olhos vejam a sua destruição.Que ele beba da ira do Todo-Poderoso.
Pois, que se importa ele com a sua casa depois de si,quando o número dos seus meses for cortado?
“Acaso alguém ensinará conhecimento a Deus,visto que ele julga os que estão nas alturas?
Um morre em seu pleno vigor,estando totalmente tranquilo e em paz.
Seus baldes estão cheios de leite.A medula dos seus ossos está umedecida.
Outro morre em amargura de alma,e nunca prova o que é bom.
Ambos se deitam no pó,e os vermes os cobrem.
“Eis que eu conheço os pensamentos de vocês,os planos com os quais vocês me fariam injustiça.
Pois vocês dizem: ‘Onde está a casa do príncipe?Onde está a tenda em que os ímpios habitavam?’
Vocês não perguntaram aos viajantes?Não conhecem as suas evidências,
de que o homem mau é preservado no dia da calamidade,de que eles são conduzidos a salvo no dia da ira?
Quem denunciará o seu caminho na sua face?Quem lhe retribuirá pelo que ele fez?
Contudo, ele será levado para a sepultura.E manterão vigília sobre o seu túmulo.
Os torrões do vale lhe serão doces.Todos os homens o seguirão,assim como foram inumeráveis os que o precederam.
Como, pois, vocês podem me consolar com tolices,visto que nas suas respostas só resta falsidade?”